quinta-feira, 26 de junho de 2025

 Conversa que nunca tivemos #2 - A crise de consciência (Parte I)



Talvez seja uma estratégia do processo de luto, olhar o objeto perdido como uma peça ausente na mobília, como uma roupa em espera do clima certo, como se só precisasse da sua eleição para ganhar visibilidade e destaque. Pensar assim, talvez traga algum conforto, entretanto é dolorido, por que lhe faz enfrentar todas às vezes que o objeto esteve lá à disposição de um simples toque e você não fez nada; coincidentemente minha crise está acompanhada com um pico de saudades da mãe.


O espaço vazio em um canto escuro do quarto é o desejo tardio de um toque, algo que ficou latejando como o luto, um membro extirpado às pressas e sem direito à despedida. Das vezes que nos falamos, falamos amenidades sobre a última noite; mas nada que merecesse a seriedade de uma ‘’despedida”. 


Talvez, ela esperasse essa oportunidade, ou um agradecimento por tudo o que ela fez, mas como um filho assustado, me faltou coragem de abordar o assunto, não quis ser eu aquele que cravaria o veredito sobre o último momento que nos veríamos.


Por medo ou por perceber algumas responsabilidades em 2023, como já escrevi (História Alternativa #6), não disse nada. Sinto como se dirigisse embriagado por uma estrada sinuosa, em que o máximo de controle que eu tenho está no limite do meu toque. Não tenho controle do clima, nem dos buracos existentes na estrada, mas posso escolher não ingerir bebidas alcoólicas e não correr.


Infelizmente, acho que fiz escolhas erradas e agora tento lidar com minha consciência. O câncer provavelmente tem o seu desenvolvimento e progresso próprio e independente de mim, mas sinto que de alguma forma, eu poderia aliviar toda sua sobrecarga, isolamento e cansaço. 


Descrito desta forma, todo acidente do percurso parece recair sob minha responsabilidade, pilotar em condição adversas foi uma escolha minha. Não tive tempo hábil de adaptar aos ares, altura e pressão da vida de casado, para voltar a morar com a mãe, quis aplicar a mesma régua para as duas experiências e acabei falhando: se fosse uma aeronave as máscaras teriam caído. 


Hoje eu vejo com clareza o quanto era necessário colocar essa mascara primeiro em mim, como os comissários de bordo falam: Primeiro coloquem as máscaras em vocês, e depois nas outras pessoas que necessitam de auxílio. Se tivesse essa consciência, talvez faria o trabalho da mãe mais fácil. Parece que anteriormente eu tinha todas as respostas prontas, com a morte da mãe, a vida como um caleidoscópio, embaralhou todas as perguntas e agora preciso por minha conta descobrir novas respostas.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Em algum lugar no passado #1 – Atualizando...

 

Em alguma medida, parece que como filho e uma pessoa que ainda está aqui, meu principal dever é recuperar certos vestígios do passado, trazendo-os para o presente, dando atualidade a eles. Como se precisasse atualizar um aplicativo há muito não utilizado. Escavo fragmentos como se quisesse interromper o fluxo de lembranças, que me parecem arrastar um caminho continuo em direção ao ralo, ao esquecimento.

 

Começou com um presente de dia das crianças, algo que minha mãe tinha sugerido em comprar pra ele, um jogo de bilhar infantil. No seu aniversário, escolhi dar um brinquedo que fazia parte das nossas manhãs com a mãe, enquanto ele tomava mamadeira e via “Dino Bagunça”. Era um cachorro que se molhava na banheira e se chacoalhava todo, molhando as crianças participantes da brincadeira. Neste ponto, minha estratégia foi bem realizada: ele se lembrou e disse “Malucão que nem quando assistimos Dino Bagunça de manhã”.

 

“Uma lembrança foi atualizada”, meu objetivo fora atingido. Desde a morte da mãe minha principal razão foi construir uma série de rastros para que ele possa seguir no futuro, não ficando escravo das narrativas que contassem pra ele. Por sorte ou azar, minha mãe teve um filho historiador e o Chico um pai, desde o seu nascimento, eu e sua mãe construímos registros, escritos ou em vídeos sobre sua história. Ele mesmo terá acesso diretamente aos registros que produzimos.

 

No entanto, voltemos ao aniversário do Francisco. Como o luto esta não é uma narrativa linear, mas cheia de silêncios e espaços vazios, de idas e voltas; como uma memória traumática é fragmentária. Precisando ser reconstituídas em meio a imagens desconexas e sem sentido. A festa de oito anos do Chico foi uma constelação de gatilhos sobre a mãe.

 

Primeiro, o lugar do encontro, o lugar que jogamos as cinzas dela; segundo o bolo que o Chico pediu era também o preferido dela.  Além disso, esse era um evento que ela certamente gostaria de participar, e por isso gerou tantos gatilhos. Não sei se ele tinha consciência das emoções que ele proporcionou, ou era só uma percepção minha mesmo. Apenas escolheu o local por que era um ponto fácil de referência e o bolo era o que estava disponível na padaria. As ligações inconscientes devem ser mais minhas do que intenções voluntárias dele. Uma coisa que nunca saberemos ao certo...

 

 

 

 

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