Conversa que nunca tivemos #2 - A crise de consciência (Parte I)
Talvez seja uma estratégia do processo de luto, olhar o objeto perdido como uma peça ausente na mobília, como uma roupa em espera do clima certo, como se só precisasse da sua eleição para ganhar visibilidade e destaque. Pensar assim, talvez traga algum conforto, entretanto é dolorido, por que lhe faz enfrentar todas às vezes que o objeto esteve lá à disposição de um simples toque e você não fez nada; coincidentemente minha crise está acompanhada com um pico de saudades da mãe.
O espaço vazio em um canto escuro do quarto é o desejo tardio de um toque, algo que ficou latejando como o luto, um membro extirpado às pressas e sem direito à despedida. Das vezes que nos falamos, falamos amenidades sobre a última noite; mas nada que merecesse a seriedade de uma ‘’despedida”.
Talvez, ela esperasse essa oportunidade, ou um agradecimento por tudo o que ela fez, mas como um filho assustado, me faltou coragem de abordar o assunto, não quis ser eu aquele que cravaria o veredito sobre o último momento que nos veríamos.
Por medo ou por perceber algumas responsabilidades em 2023, como já escrevi (História Alternativa #6), não disse nada. Sinto como se dirigisse embriagado por uma estrada sinuosa, em que o máximo de controle que eu tenho está no limite do meu toque. Não tenho controle do clima, nem dos buracos existentes na estrada, mas posso escolher não ingerir bebidas alcoólicas e não correr.
Infelizmente, acho que fiz escolhas erradas e agora tento lidar com minha consciência. O câncer provavelmente tem o seu desenvolvimento e progresso próprio e independente de mim, mas sinto que de alguma forma, eu poderia aliviar toda sua sobrecarga, isolamento e cansaço.
Descrito desta forma, todo acidente do percurso parece recair sob minha responsabilidade, pilotar em condição adversas foi uma escolha minha. Não tive tempo hábil de adaptar aos ares, altura e pressão da vida de casado, para voltar a morar com a mãe, quis aplicar a mesma régua para as duas experiências e acabei falhando: se fosse uma aeronave as máscaras teriam caído.
Hoje eu vejo com clareza o quanto era necessário colocar essa mascara primeiro em mim, como os comissários de bordo falam: Primeiro coloquem as máscaras em vocês, e depois nas outras pessoas que necessitam de auxílio. Se tivesse essa consciência, talvez faria o trabalho da mãe mais fácil. Parece que anteriormente eu tinha todas as respostas prontas, com a morte da mãe, a vida como um caleidoscópio, embaralhou todas as perguntas e agora preciso por minha conta descobrir novas respostas.
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