Em algum lugar no passado #1 – Atualizando...
Em alguma medida, parece que como filho e uma pessoa que
ainda está aqui, meu principal dever é recuperar certos vestígios do passado,
trazendo-os para o presente, dando atualidade a eles. Como se precisasse
atualizar um aplicativo há muito não utilizado. Escavo fragmentos como se
quisesse interromper o fluxo de lembranças, que me parecem arrastar um caminho
continuo em direção ao ralo, ao esquecimento.
Começou com um presente de dia das crianças, algo que minha
mãe tinha sugerido em comprar pra ele, um jogo de bilhar infantil. No seu
aniversário, escolhi dar um brinquedo que fazia parte das nossas manhãs com a
mãe, enquanto ele tomava mamadeira e via “Dino Bagunça”. Era um cachorro que se
molhava na banheira e se chacoalhava todo, molhando as crianças participantes
da brincadeira. Neste ponto, minha estratégia foi bem realizada: ele se lembrou
e disse “Malucão que nem quando assistimos Dino Bagunça de manhã”.
“Uma lembrança foi atualizada”, meu objetivo fora atingido.
Desde a morte da mãe minha principal razão foi construir uma série de rastros
para que ele possa seguir no futuro, não ficando escravo das narrativas que
contassem pra ele. Por sorte ou azar, minha mãe teve um filho historiador e o
Chico um pai, desde o seu nascimento, eu e sua mãe construímos registros,
escritos ou em vídeos sobre sua história. Ele mesmo terá acesso diretamente aos
registros que produzimos.
No entanto, voltemos ao aniversário do Francisco. Como o
luto esta não é uma narrativa linear, mas cheia de silêncios e espaços vazios,
de idas e voltas; como uma memória traumática é fragmentária. Precisando ser
reconstituídas em meio a imagens desconexas e sem sentido. A festa de oito anos
do Chico foi uma constelação de gatilhos sobre a mãe.
Primeiro, o lugar do encontro, o lugar que jogamos as cinzas
dela; segundo o bolo que o Chico pediu era também o preferido dela. Além disso, esse era um evento que ela
certamente gostaria de participar, e por isso gerou tantos gatilhos. Não sei se
ele tinha consciência das emoções que ele proporcionou, ou era só uma percepção
minha mesmo. Apenas escolheu o local por que era um ponto fácil de referência e
o bolo era o que estava disponível na padaria. As ligações inconscientes devem
ser mais minhas do que intenções voluntárias dele. Uma coisa que nunca
saberemos ao certo...
❤️
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